sexta-feira, 4 de novembro de 2011 0 comentários

Miniconto

terça-feira, 18 de outubro de 2011 0 comentários

BIENAL DO LIVRO DE SALVADOR

terça-feira, 23 de agosto de 2011 0 comentários

Sarau "Artes em Geral, Poesia em Particular"


sexta-feira, 19 de agosto de 2011 0 comentários

Deu "Balaio de Gato" no "Cidade da Cultura"

A equipe do Balaio de Gato (programa da TVE), esteve nesta quinta-feira (18), no bar e restaurante Cidade da Cultura para gravar seu próximo programa dedicado aos artistas de Feira de Santana.

Depois do convite, feito por Asa Filho - proprietário do restaurante -, a equipe da TVE percebeu a riqueza cultural existente no local, e se interessou em gravar um especial sobre as atividades culturais do local.

Amanda Menezes e Nívia M. Vasconcellos
Entre essa riquezas, estavam artistas que frenquentam o local e participaram da gravação. Músicos como o próprio Asa Filho, Neném do Acordeon, a poeta Nívia Maria Vasconcellos e o artista plático Gabriel Ferreira representaram a classe artística da cidade.

A equipe composta pela jornalista Amanda Menezes, pelo produtor Gastão Neto e o cinegrafista Xavier Goveia levou dentro do ‘balaio” muita música, poesia e muita imagens inusitadas da nossa Cidade da Cultura.

Xavier Goveia, Amanda Menezes, Asa Filho, Gastão Neto, Nívia Maria Vasconcellos, Neném do Acordeon e Gabriel Ferreira




Texto e Fotos: Cid Fiuza

terça-feira, 16 de agosto de 2011 1 comentários

Festival Literário e Cultural de Feira de Santana

quinta-feira, 4 de agosto de 2011 0 comentários

Entrevista: Gibran Sousa

O ato de declamar na contemporaneidade                    não está na contemporaneidade.

Os recitais são ultrapassados, conservadores [...]. Mas, eu cheguei.
Hoje, às 20h no CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte de Feira de Santana-BA), o poeta e declamador, Gibran Sousa apresentará o recital Irritmia. Abaixo, um rápido bate-papo  sobre a sua apresentação e a sua posição acerca da declamação na contemporaneidade.

Como surgiu a ideia de produzir o Irritmia? O projeto será realizado apenas no dia 4 ou haverá uma continuidade?

Eu já havia manipulado assonâncias, ecolalias, texturas no “Diversital” – meu primeiro show. Esse acontecia concomitantemente a outro projeto meu, o “Outros Caretas”, uma banda irregular, sem caráter, lúcida enquanto lúdica, com músicas espalhafatosas, sofismáticas, pró-polêmicas, que repercutiram de modo visceral, a ponto de me  agredirem fisicamente. Isso por causa de uma música minha chamada “A Bahia”, que decidi não cantar nunca mais. Posteriormente, no “Transmídia”, desenvolvi performances nas quais projetei a palavra com outras possibilidades artísticas, desde o sapateado, passando pelo teatro até as artes plásticas. O “Irritmia”, meu recital atual, que sucede o “Transmídia”, insurge da necessidade de me rebelar contra o desgastado cenário da Literatura Baiana, ao debulhar novas estéticas para os nossos poetas sem coragem e sem talento e, sobretudo, da minha consciente arrogância em tentar atrair novamente jovens para o precipício das palavras.

Sim, haverá continuidade. Eu e minha banda realizamos recitais e shows com freqüência. Já temos pelo menos mais seis apresentações agendadas para os meses de agosto e setembro. Apresentaremos o “Irritmia”: no dia 13/08 em Riachão do Jacuípe, no dia 19/08 na Feira do Livro em Feira de Santana com Juraci Dórea, Antônio Brasileiro e Roberval Pereyr, no dia 10/09 no projeto Fala Escritor" na Saraiva do shopping Iguatemi em Salvador, dentre outras.

Dos Aedos e Rapsodos para cá, passando por grandes vates declamadores como Castro Alves, como você analisa o ato de declamar na contemporaneidade?

O ato de declamar na contemporaneidade não está na contemporaneidade. Ainda hoje os poemas são ditos como se diziam orações, ladainhas, reclames. Os poetas de hoje acreditam que para serem poetas devem ser os poetas de ontem, de modo que pra ser poeta tem que ser o poeta do sempre, mas o poeta do sempre não é sempre poeta. Os recitais são ultrapassados, conservadores, canastrões, sonolentos, ridículos. Cheios de “tus” e “vós”, com gritos, mesóclises, brados inflamados, braços hasteados, interpretações mambembes. Ignoram a existência de microfones, acústica, ritmos e projetores, das perspectivas de agora. Preferem se deter à naftalina, e por isso a poesia é  tão e somente e justificadamente associada à coisa velha. Mas, eu cheguei.

O que você diria como incentivo para que as pessoas compareçam ao recital Irritmia?

Nada de importante, vou apenas revelar a identidade da(o) namorada(o) de Luan Santana, o novo clip da Lady Gaga, o vencedor do brasileirão de 2011, o final da novela das oito...

Entrevista: Nívia Maria Vasconcellos
Foto: Wannessa Reis

domingo, 31 de julho de 2011 0 comentários

Entrevista: Antonio Barreto

Nós não seguimos o caminho da poesia. 
A poesia é que insiste em nos seguir, ou possuir...




No caso do cordel sobre o BBB, não esperava que houvesse tanta polêmica
Professor, cordelista e poeta, Antonio Barreto possui uma formação popular proveniente do convívio com repentistas, violeiros e cordelistas do interior da Bahia de onde é originário mesclada com uma formação acadêmica adquirida ao longo da graduação em Letras Vernáculas e das especializações que fez. Compôs  um cordel sobre o BBB que foi demasiadamente reproduzido nos meios virtuais e propagou as suas composições para fora das fronteiras da Bahia e, até mesmo, do Brasil.



Você é natural de Santa Bárbara-BA. Hoje reside em Salvador. Muitos artistas fazem esse mesmo trajeto para localidades ainda mais distantes como Rio de Janeiro e São Paulo. Qual a importância de migrar para a capital? O que diria ao artista que vive esse dilema?

Não havia, na década de setenta, ensino de segundo grau em Santa Bárbara, fato que me levou, aos 19 anos, a colocar o matulão no ombro pousar em Salvador. Essa aventura era, para um jovem interiorano, um misto de encantamento e desafio. Encantamento por mergulhar no mundo da novidade, desafio por deixar o meu habitat singelo e bucólico em troca de uma vida conflituosa na cidade grande. No início, fiquei atormentado, o meu vínculo com o sertão era tamanho que eu chorava todos os dias, me sentia abandonado, aborrecido. Mas, aos poucos, fui me adaptando e quando a poesia começou a pulsar em mim, descobri que Salvador era o espaço ideal para que eu pudesse ser aceito e notado enquanto cordelista. Então a importância de migrar para uma grande metrópole não deixa de ser um marco positivo para quem busca espaço no campo das artes, sobretudo no caminho da literatura. Se eu permanecesse em Santa Bárbara, dificilmente chegaria aonde cheguei. Infelizmente essa migração para uma grande metrópole acaba sendo um mal (bem) necessário.

Dos violeiros e repentistas de sua infância aos clássicos da literatura com os quais lida no ambiente acadêmico, quais as principais influências que suas composições carregam?

Veja, tudo começa quando eu ainda era menino, vivendo na Fazenda Boa Vista, município de Santa Bárbara, local onde abri os olhos para essa odisséia humana. Me recordo que às terças-feiras, dia da feira livre, minha avó Guilhermina me punha na garupa do cavalo e me levava à cidade. E quando vi pela primeira vez um repentista chamado Azulão se apresentado na praça, fiquei encantado! Vi também um repentista chamado Dadinho (já falecido), pai dos repentistas feirenses Caboquinho e João Ramos. Em seguida apareceram alguns folheteiros de cordel que expunham e cantavam os seus versos populares na praça.  Li “O Pavão Misterioso” e “Cachorro do Mortos” - ambos de Leandro Gomes de Barros (Pombal/PB – 1865/1918). Em 72 apareceu um embolador chamado Azulão da Paraíba, que chegou a morar lá em Santa Bárbara e era um grande improvisador. Bem, a partir dali um anjo de luz sentenciou: cordelista ou cordelista – para sempre!

Chegando a Salvador em 75, passei a ter contato com a poesia popular de Patativa do Assaré; conheci o grande cordelista Rodolfo Coelho Cavalcanti, que cantava os seus cordéis em frente ao Mercado Modelo. Um pouco depois me aproximei de vários repentistas dos quais me tornei amigo: mestre Bule-Bule, Antonio Queiróz, Leandro Tranquilino, Paraíba da Viola, Caboquinho, João Ramos, além dos grandes cordelistas Frankin Maxado, Antonio Vieira, Jotacê Freitas e tantos outros. Na década de 80, entrei para o Curso de Letras na Ucsal. Ali, tive o prazer de ser aluno da professora Edilene Matos, que é uma grande pesquisadora da Literatura de Cordel. Ela nos incentivou muito ao estudo da cultura popular. E olha que naquela época não constava na grade curricular da UCSAL (como não consta até hoje) o estudo da Literatura de cordel, e Edilene já nos estimulava à pesquisa.

Além dessa incursão nas trilhas do cordel, me aproximei da literatura canônica em função da minha licenciatura em Letras Vernáculas  e acabei lendo Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Drummond, Leminski, Mário Quintana, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e tantos outros. De modo que cheguei a escrever dois livros de poesia: “Uns Versos Outros” e “Flores de Umburana”, mas o meu caminho verdadeiro era mesmo a poesia popular – a qual eu abracei definitivamente. Então esses acontecimentos foram fundamentais para minha caminhada cordelística.


Como era o Antonio Barreto antes de “O discurso de um caipira”, como é o Antonio Barreto de depois? Fazer cordel o resignificou enquanto ser humano?

Antes da publicação do referido cordel, eu era completamente desconhecido, um cordelista ainda anônimo! Tinha comigo muitos escritos de cordel guardados no baú, mas a timidez e a falta de estímulo não me deixavam levar a produção cordelísticas a sério. Daí, passei a dialogar com pessoas ligadas ao cordel, os incentivos foram surgindo, boas parcerias, resolvi então publicar, em 2004, “O discurso de um caipira arretado”, que foi o meu primeiro folheto de cordel. Para minha surpresa, a resposta foi deveras positiva, de modo que não parei mais e já tenho 125 títulos publicados – além de vários ainda inéditos. 

Poeta ou cordelista? Poeta e cordelista? Poeta cordelista? Vê diferenças entre ser um e outro? Como você se auto-definiria?

É uma situação delicada, porque já ouvi muitas pessoas entendidas dizerem que há diferença entre poeta e cordelista.  Outros insistem em dizer que não há diferença. Talvez exista uma certa dicotomia. Então perceba: ambos são vates que possuem o dom de versejar. O chamado poeta, que remonta da Grécia Antiga, cuja missão é ‘alquimizar’ a palavra com fins estéticos, utiliza-se, em geral, do gênero lírico e pertence ao cânone, ao passo que o cordelista pertence ao universo da cultura popular, obedece a regras de rima, ritmo e oração. Ademais a nossa poesia é basicamente narrativa, mas o aspecto lírico não deixa de está presente na obra dos cordelistas.  Drummond era poeta, não era cordelista; João Cabral era poeta, não era cordelista; Ana Cristina Cesar era poeta, não era cordelista. Já Patativa do Assaré era poeta e cordelista, Rodolfo Coelho Cavalcante era poeta e cordelista, Bráulio Tavares é poeta e cordelista.  Enfim, não deixa de ser um assunto polêmico, mas o que vale é o bom senso. Eu, por exemplo, me autointitulo poeta e cordelista!

Depois da polêmica gerada com o cordel “Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso”, você compôs outro de ainda maior repercussão: “Big Brother Brasil, um programa imbecil”. Você esperava tamanha reverberação?

No caso do cordel sobre o BBB, não esperava que houvesse tanta polêmica, até porque eu não tinha a intenção de divulgar na Internet, apenas enviei a cópia a um casal amigo de Belo Horizonte (Paulo e Nívea) e eles puseram na Net, daí a surpresa, ou seja, começou a circular no Brasil inteiro e além-mar. Até hoje recebo elogios de professores, doutores, políticos, estudantes, donas de casa, motoristas, pessoas simples. Do exterior, tem chegado muita moção de reconhecimento, inclusive da Espanha, França, Dinamarca, Argentina, Grécia, Portugal... Esse cordel do BBB tem sido utilizado em sala de aula por muitos professores, sem falar nos estudantes que o utilizam em suas teses de pós-graduação e mestrado. Isso para mim foi uma prova de que não devo fugir dessa temática tão importante que é a crítica social. Enfrentar a Globo e ‘disdizer’ o que Pedro Bial anda dizendo: não é brincadeira!

Já no cordel sobre o Caetano Veloso, a história muda. Eu sabia da repercussão, só não imaginava que iria enfrentar tantos problemas com o fã clube dele! Deixei de levar os folhetos para os eventos dos quais participo, sofri até ameaça, inclusive retirei o referido cordel do meu blog. Confesso que fiquei meio arrependido depois de tal intento! Se bem que ele mereceu, em função do ser arrogante e elitista que ele é enquanto formador de opinião. Não consigo enxergá-lo como um baiano, um nordestino – ele tem algo de europeu, de burguês.  Aquele menino bacana e inocente, lá de Santo Amaro da Purificação, filho de Dona Canô, parece ter abraçado o trono da vaidade, definitivamente! Essa mania de Caetano se achar a quintessência do conhecimento o torna merecedor de críticas como essa do meu cordel. Mas ele não deixa de ser um dos mais brilhantes artistas da MPB. Eu o reconheço como um artista genial, embora no campo da espiritualidade ele esteja muito aquém.

Seus cordéis sempre estão bem antenados com os acontecimentos do mundo. Eles são sertanejos e universais. O que é notícia em suas mãos vira cordel. Qual a relação entre o cordel e o jornalismo?

A produção do cordelista se aproxima muito da produção jornalística, ambos estão permanentemente levando ao conhecimento do povo os fatos mais inusitados possíveis – desde o que acontece no nosso quintal ao mais distante rincón  do Planeta Azul!

Quando começaram a chegar as primeiras tipografias no Nordeste brasileiro, um paraibano da cidade de  Pombal/PB chamado Leandro Gomes de Barros foi a Recife e imprimiu o primeiro folheto de cordel, isso por volta de 1893.  A partir daquele marco o cordel passou a ter a função de jornal, pois era a forma mais viável de a notícia chegar aos lugares mais distantes. Do cangaço à morte de Getúlio Vargas, da primeira guerra mundial à chegada do homem a lua, o cordel se encarregava de noticiar os fatos. Então o cordelista estava ali fazendo exatamente o mesmo papel do jornalista. Claro que os tempos mudaram, ainda assim estamos conectados com o mundo inteiro (através da Net) enviando noticias em forma de cordel – inclusive àquelas “notícias” que alguns jornalistas insistem em não divulgá-las!

Você é acompanhado por seu violão em apresentações que realiza por aí. Qual é a sua postura diante da polêmica que envolve a relação entre a letra de música e a poesia?

Pensei que essa polêmica havia desaparecido, mas não deixa de estar em voga! Toco violão para tornar o meu cordel mais alegre e receptivo. É uma estratégia para tornar o cordel mais lúdico – e musical!

Não sou maluco para dizer que música e poesia são irmãs gêmeas, mas quero crer que elas são primas e amigas – elas se roçam, se beijam, se cumprimentam!

Quando se chega à conclusão de que não é difícil musicar um poema, tem-se a impressão de que poesia é música. Musicar Flor Bela Espanca, Fernando Pessoa, Maiakovski não deixa de ser um casamento da música com a poesia, mas isso ainda não é o suficiente para determinarmos que ambas são iguais. Às vezes elas se juntam dando a impressão de que são iguais, mais adiante se dissociam. O mais sensato seria a gente dizer: a letra daquela música é muito poética! Talvez a compreensão dessa polêmica tenha sustentação na melopeia de Erza Pound!

Acredito no texto poético do letrista, mas a poesia em si não precisa de música – ela se realiza no mais profundo silêncio, porque fazer letra de música ainda não é o exercício verdadeiro da poesia! A poesia é, sim, um arranjo demasiadamente harmônico de palavras – mas ainda não é música. E por que não denominarmos de poesia cantada?! O bom mesmo é ser cordelista e ter o privilégio de cantar os meus versos, cantar a minha poesia!

Deixe uma mensagem para quem deseja seguir o caminho do cordel e da poesia.

Nós não seguimos o caminho da poesia. A poesia é que insiste em nos seguir, ou possuir... E quando isso acontece: ouvir o silêncio (ou a música) do coração é a atitude mais sensata do predestinado!


Então a mensagem que deixo para os meus pares é: não se preocupem com o tempo, com a fama, com brigas inúteis, ciumeiras, porque tudo passa, mas a poesia fica. Costumo escutar carinhosamente o poeta Ruy Espinheira Filho: a literatura é silenciosa...



Para conhecer Antonio Barreto pessoalmente, compareça a seu próximo lançamento em SSA:




 Entrevista: Nívia Maria Vasconcellos
Fotos: Wannessa Reis

Abaixo, o vídeo do cordel “Big Brother Brasil, um programa imbecil”












terça-feira, 26 de julho de 2011 0 comentários

Irritmia no CUCA

segunda-feira, 25 de julho de 2011 0 comentários

Lançamento - Gabriel Ferreira


Sempre sentira a necessidade de ilustrar algumas das minhas memórias infantes. Época em que a imaginação tinha uma elasticidade sem precedentes; voava alto e dava rasantes sobre a minha própria cabeça. Desde à tenra idade juntava fatos reais e probabilidades para construir um mundo bastante particular. A timidez favorecia uma introspecção profunda a ponto daquela criança tanquinhense, chamada de Bié, sentir-se uma pessoa invisível, um peixe fora d’água ou, ainda, um pássaro de rumo incerto. Sentia-se apenas notada por seus desenhos, caracterizados não apenas como garatujas ou rabiscos sem sentidos, neles havia um nível de consciência e consistência advindo de um observador com boas predileções artísticas (Gabriel Ferreira).




Museu de Arte Contemporânea (Feira de Santana)

Rua General Costa, 255, Feira de Santana
Tel. (75) 3223 7033


quinta-feira, 21 de julho de 2011 6 comentários

ENTREVISTA: Lidiane Nunes

"É, justamente, 'em tempos de penúria' que a literatura se faz mais necessária"


Não tenho pretensões de sacralidade, nem de fama.
Escrevo por pura necessidade. 
Professora de Literatura, graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Lidiane Nunes é especialista em Estudos Literários, pela mesma instituição e, sobretudo, poeta. Participou da Antologia concurso feirense de poesia Godofredo Filho em 2010 e da coletânea Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI, organizada pelo poeta José Inácio Vieira de Melo e publicada pela Escrituras Editora, em 2011. Além disso, mantém o blog Deslocamentos.

Você participa da coletânea organizada pelo poeta José Inácio Vieira de Melo que será lançada no próximo sábado dia 23. Você se sente um Sangue Novo no cenário poético baiano?

Sim, acredito que um “sangue novo” é uma ótima definição para o que considero ser dentro do cenário poético baiano. Não me sinto uma poeta pronta, se é que estarei pronta algum dia. Pelo contrário, desconfio sempre do que escrevo. O que sei é que amo escrever, amo ser lida, sou apaixonada pela arte literária, pela poesia; no entanto, sei que inicio a minha caminhada agora e ainda tenho uma longa estrada pela frente.

Como definiria a sua linguagem poética? O que a torna consoante com a sua contemporaneidade?

Não sei definir bem a minha linguagem poética. Acho que sou um tanto pessimista quando escrevo. Os meus versos são tristes, quase sempre. E a minha escrita é sucinta. Não consigo escrever poemas longos. Gosto de dizer o que sinto com poucas palavras. Talvez, essa linguagem mais breve, mais rápida e esse ceticismo diante da vida e do próprio ser humano, seja o que a torna mais consoante com o mundo contemporâneo.

Muito se analisa a poesia contida no cinema, às vezes se dá o inverso. É sabido que você é uma cinéfila. O quanto a sétima arte influência seus versos? Ela seria um leitmotiv de suas composições?        

Sou mesmo uma cinéfila de carteirinha e, sem dúvida, isso influencia os meus versos. Não apenas já fiz do assunto de um filme o leitmotiv de minhas composições, como a forma fragmentada do cinema tem me ensinado bastante. Devo muito à sétima arte.

No livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, Italo Calvino nos diz que a literatura tem como função existencial a busca da leveza como reação ao peso do viver. Já Hölderlin, em uma de suas composições, provoca reflexão por meio da pergunta: "para que poetas em tempos de penúria?" Você concorda com Calvino? Como responderia a indagação de Hölderlin?

Responderia a Hölderlin dizendo que é, justamente, “em tempos de penúria” que a literatura se faz mais necessária. Dino Buzzati nos ensina que há sempre uma dor que é só nossa, uma dor que ninguém pode tomar para si. Eu concordo com essa assertiva e acho que essa dor intransferível apenas pode ser aliviada pela arte ou por alguma paixão. A arte de modo geral, o cinema, a literatura tem esse poder, de aliviar o “peso do viver”, como defende Calvino. A literatura, em particular, nos encanta, nos enleva, nos ensina, nos faz refletir, nos torna melhores ou, pelo menos, traz mais sensibilidade e beleza para nossa existência precária. É claro que, por outro lado, ela nos oferece uma visão mais ampla do mundo que, talvez, acabe tirando aquela nossa alegria inconsciente. No entanto, prefiro assim. Não consigo imaginar um mundo sem literatura, sem arte. E fico com a definição de Fernando Pessoa, para quem a arte é “aquela que alivia da vida, sem aliviar de viver”.


Nestes tempos de poeta dessacralizado, qual esperança a leva a publicar? O que espera do lançamento e do pós-lançamento?

Estaria mentindo se dissesse que não pretendo ser lida. Escrevo para ser lida e fiquei muito grata ao José Inácio pelo convite para participar da coletânea Sangue Novo. Espero, com este lançamento, que a poesia que se faz na Bahia, principalmente, pelos jovens escritores, seja mais divulgada, mais valorizada. Quanto ao pós-lançamento, quero continuar escrevendo, rabiscando meus versos. Estou com outro livro quase pronto, que espero publicar, em breve. Mas não tenho pretensões de sacralidade, nem de fama. Escrevo por pura necessidade. É uma maneira de lançar o meu grito, de quebrar o silêncio que faz morada em mim. É uma forma de me deslocar para o lugar que melhor me encontro. E se for lida por meus amigos, por aquelas pessoas especiais em minha vida e por mais alguns poucos que, por acaso, apreciem o meu fazer poético, estarei satisfeita.

A poesia é divina ou profana? Rainha ou cortesã?

As duas coisas. Ernst Fischer nos diz que a poesia é, essencialmente, magia. Murilo Mendes dizia ser “da raça do Eterno”. O poeta é “a antena da raça”, nos sinalizou Ezra Pound. Sim, a poesia é divina, mas também é profana, uma vez que é o reflexo das inquietações do homem. O poeta é um ser de sensibilidade ímpar, mas que vive numa constante crise de alma, como qualquer mortal. E, para mim, a poesia é a soma de tudo isso.

Que mensagem gostaria de deixar para aqueles que querem ingressar no mundo do fazer poético?

Gostaria de dizer que leiam muito, que escrevam, que se arrisquem com as palavras - uma luta que vale a pena – e que não tenham pressa em publicar, porque a nossa estrada é comprida e cada passo que damos nessa peregrinação poética é um aprendizado, um amadurecimento. No mais, espero mesmo que tenhamos muitos “sangues novos”, fatalizados pela poesia.

Um pouco da arte de Lidiane Nunes:



EPIFANIA

Picasso: Mulher Nua em Poltrona Vermelha
Me vesti de primavera,
pintei o meu rosto
e fui sorrindo
me encontrar.

Você depositou em mim
o teu olhar seguro,
adormeci nos teus braços
e, só assim, 
pude sonhar.

Sonhei que era uma rocha
pronta a enfrentar
a correnteza do rio.

Mas uma brisa passou
e eu despertei: 
nua, sentindo frio.
 

quarta-feira, 20 de julho de 2011 0 comentários

Gabriel Ferreira: abençoado por Deus e artista por natureza



Conheci Gabriel Ferreira há um pouco mais de 10 anos. Desde então suas experiências musicais já se misturavam às suas aventuras pelas artes plásticas e ao arriscado caminho da poesia. E assim é até hoje. Uma das características que mais me soltam aos olhos em suas obras é justamente essa tríade que aparece, muitas vezes, de forma mesclada. Ele as compila realizando uma série de ilustrações como em Desenho de Poesia, em Eurótico (baseadas no livro do poeta Patrice de Moraes) e em Musicalidade. Ainda se pode acrescentar o lado afro na série de ilustrações chamada de Capoeiragem, na qual mais uma arte surge: a dança. De sua exposição em 1994 no Tríduo Cultural de Tanquinho até esse nosso pós-moderno século XXI, Ferreira Preto já acumulou prêmios e exposições em diversos salões transpondo os limites da região de Feira de Santana e conquistando Cachoeira, Itabuna, Salvador, São Paulo e até terras mui distantes como Israel. Artista sempre ativo e irrequieto, possuí traços inconfundíveis e uma personalidade que se impõe naquilo que se propõe a realizar. Não se pode deixar de notar sua sensibilidade que faz sua obra um leitura sempre criativa e de outras obras.  Percussionista, artista visual e arte-educador, Gabriel Ferreira teve, ao nascer, as mãos abençoadas por Deus. A nós, resta-nos ouvir e ver o som e as imagens que através dele se fazem presentes para a nossa contemplação.

LUIZA
BETUME DA JUDÉIA E CARVÃO/TELA(60x80)cm2008
ACRÍLICO SOBRE LP's DE VINIL
2007
INSPIRADAS EM POEMAS DE PATRICE DE MORAES
BETUME DA JUDÉIA, SELADORA E CARVÃO/TELA (50x40)cm
2006
SERTÕES - A RODA II
SÉRIE CAPOEIRAGEM 2005
AST (50x120)cm

Para conhecer mais obras de Gabriel Ferreira basta acessar seu blog: 


Texto: Nívia Maria Vasconcellos


sexta-feira, 15 de julho de 2011 0 comentários

Entrevista: Juliana Moraes

"Sempre soube que advocacia ficaria em segundo plano"

Cantora e compositora, Juliana Moraes é uma artista em plena ascensão no cenário musical baiano e já ultrapassou as fronteiras do estado. Vivendo 100% para a música, ela integra o grupo Samba d'Ju que realiza uma temporada de shows em terras feirenses. 


Foto: Assessoria de Imprensa

 Hoje tudo que eu faço é pensando na minha música.

O que mudou de mais significativo e o que mais permanece na menina Ju desde quando ela cantou “Ai, que saudade da Amélia”, passando pela que soltava a voz no Ruído Rosa e a que faz o público se acabar de sambar no Samba d’Ju?

Muita coisa mudou! Mais uma coisa continua acontecendo até hoje, quando cantei pela primeira vez não sabia o que estava fazendo, mas tive a primeira ligação com o público, aquilo me arrepiou dos pés a cabeça, como ainda acontece nos shows de Samba d’Ju.

É uma sensação incrível, saber que você está sendo ouvida e passando alguma mensagem através da música.

O que mudou? Além da maturidade que só o tempo nos dá, comecei a viver pra música. Hoje tudo que eu faço é pensando na minha música. Eu não saio de casa sem meu mp4, pesquiso muito, procuro sempre produzir coisas novas e acho que cada dia mais as coisas vão melhorar.

O projeto Ruído Rosa é muito diferente do projeto Samba d’Ju. Como foi sair de um pop rock para o samba? Como Nanda Duarte e Juan Santiago entraram em sua vida artística e influenciaram essa decisão?

Nanda Duarte, Ju, Juan Santiago
Nanda e Juan são meus amigos há quase 10 anos, nos conhecemos no colégio. Com Nanda eu descobri o que é uma amizade verdadeira e como isso pode nos ajudar na sintonia musical, disso nós juntamos os sonhos com a inquietude de mostrar o que estávamos aprendendo a fazer que a Ruído Rosa surgiu. Era um projeto muito amador! Só existia porque éramos muito cara de pau (risos).

Quando a Ruído Rosa acabou, eu precisava de um time pra saber o que eu queria da vida. Depois de mais de um ano sem tocar, eu já prestes a explodir, Juan reapareceu com a ideia de montar uma banda de samba. Aquilo me soou muito bem! Tão bem que nem pensei, aceitei na mesma hora. E fui vendo que aquilo era o meu lugar, como se eu tivesse nascido pro samba e como se tudo que eu fiz ou passasse a fazer naquele momento fosse virar samba. E VIROU! Juan me mostrou que não precisamos ter medo, que a música é universal e o samba... é tão universal quanto.

Em que momento sentiu que a advocacia iria ficar para segundo plano? Hoje, existem outras atividades que concorram com o seu fazer artístico?

Sempre soube que advocacia ficaria em segundo plano, mas eu tinha medo de largar a carreira, porque, por mais incrível que pareça, eu ia muito bem nela. Só que eu me enganava, sempre tentava pegar mais trabalho do que eu podia, tentava esquecer e esconder o meu lado artístico. Um dia um dos meus chefes me chamou na sala dele e falou: “Se você não tivesse o dom incrível que você tem, seria uma das minhas melhores advogadas.”. Quando saí da sala dele, parecia que tudo tinha mudado dentro de mim. No dia seguinte pedi demissão.

De lá pra cá, nem penso mais na advocacia, estou 100% focada na música. Se estou malhando, estou pensando na minha performance. Se estou na internet, estou pesquisando, respondendo aqueles que admiram meu trabalho, divulgando e cobrando (risos). Eu não paro um minuto. TUDO pelo meu sonho, tudo por esta banda.

Você prefere compor ou cantar? Realiza-se mais em qual dessas atividades?

Não consigo distanciá-las. Acho que é algo muito meu! Eu adoro as minhas músicas, eu amo escrever. Mas só escrever não é o bastante, eu gosto de cantá-las. Eu tenho ciúmes das minhas músicas, até hoje não consegui passar nenhuma delas pra outros intérpretes, mas ainda vou me desapegar.

Acho que a cantora que sou hoje se deve muito a compositora que ainda está nascendo. Sei que nos dois ainda tenho muito pra mostrar e no que melhorar. Aguardem.

Os artistas em geral começam no interior e saem para ganhar a capital. Você foi estudar em Salvador, acabou se estabelecendo artisticamente por lá e, agora, vem realizar um temporada em Feira de Santana. Como é esse processo inverso? Sente diferença de um público para o outro?

Foto: Assessoria de Imprensa
O processo é inverso porque foi a ordem natural que assim o fez. Acho que a nossa música é algo muito diferente do que já se tem no mercado e muitas vezes, a primeira vista, não tão fácil de atingir a todo e qualquer público. Acredito que precisávamos de mais maturidade aqui, criar uma boa base para levar aos outros lugares uma Samba d’Ju “redonda” e segura, como hoje ela está.

O público é sempre maravilhoso, tanto em Salvador quanto nos outros lugares. Mas tocar em Feira tem sido único, a gente mal chegou e já sinto uma energia e uma sintonia com o público que normalmente levamos mais tempo pra conseguir. Tem sido bom demais.

O que espera dessa temporada em terras feirenses? O que podemos esperar de Samba d’Ju?

Espero que consigamos conquistar o carinho e a atenção de cada um de vocês e em troca só queremos essa energia incrível que nos tem passado todos os sábados.

Nós daremos o melhor e a cada sábado muitas e muitas novas emoções, muito samba e alegria a todos vocês.

Entrevista: Nívia Maria Vasconcellos
Fotos: Assessoria de Imprensa

quinta-feira, 14 de julho de 2011 1 comentários

Sangue Novo

Organizada pelo poeta José Inácio Vieira de Mello, a coletânea Sangue Novo - 21 poetas baianos do século XXI será lançada este mês na livraria LDM-SSA.




Poetas convidados:

Alexandre Coutinho
André Guerra
Bernardo Almeida
Caio Rudá de Oliveira
Clarissa Macedo
Daniel Farias
Edson Oliveira
Érica Azevedo
Fabrício de Queiroz
Gabriela Lopes
Georgio Rios
Gibran Sousa
Gildeone dos Santos Oliveira
Janara Soares
Lidiane Nunes
Priscila Fernandes
Ricardo Thadeu
Saulo Moreira
Vânia Melo
Vanny Araújo
Vitor Nascimento Sá







Informações sobre o Lançamento 

Dia: 23 de julho de 2011
Horário: de 10h às 14h
Local: Livraria LDM (Rua da Piedade, Piedade, SSA-BA.)




Mais informações no blog do poeta José Inácio Vieira de Melo

domingo, 3 de julho de 2011 0 comentários

Axé d'Ju, Forró d'Ju, Sertanejo d'Ju, Reggae d'Ju, Pagode d'Ju = Samba d'Ju

Foto: site/divulgação
O ecletismo marcou a noite de ontem em terras feirenses durante apresentação do grupo musical Samba d'Ju. Sob o comando da alegria e da voz de Juliana Moraes, ou simplesmente Ju como todos (íntimos ou não) a chamam, o público foi incitado a dançar. 


O espaço do bar O Boteco ficou pequeno para tantos pés e rebolados. Várias músicas, mesmo as do próprio trio, eram acompanhadas por todos que curtiram, madrugada à dentro, uma mescla de sons que tinha o samba por base. 

Nanda Duarte (violão) e Juan Santiago (cavaquinho) completam grupo que, desde 2009, esbanja a sua musicalidade. Os músicos Adilson Andrade (bateria), Durval Santos (percussão), Elias Santos (percussão), Gustavo Dias (baixo), Marlon Brasil (teclado) também se fazem presentes no palco, colaborando com a mesclada sonoridade das apresentações do Samba d’Ju.

A música Não deixa o samba morrer (Edson Conceição/Aloísio) foi um dos pontos altos da apresentação. Outro momento que merece destaque foi quando, atendendo a pedidos, Ju cantou Tum, Tum, Goiaba (Leonardo Reis/Marcio Brasil). Não se pode deixar de frisar também o repertório próprio como a canção Aquela (Ju Moraes).

Ju Moraes
O som de Samba d’Ju pode ser conhecido através de seu CD, lançado na internet e disponível para downloads no site oficial: http://www.sambadju.com.br

Quem perdeu a primeira apresentação pode conferir outras nos demais sábados do mês de maio no bar O Boteco. Com certeza, encontrará muito axé, sertanejo, reggae, forró e, até mesmo, um pagodinho, vários ritmos, mas sempre com a marcação do samba: isso sim é Samba d'Ju!!


Texto: Nìvia Maria Vasconcellos
Fotos: Site/Divulgação

sexta-feira, 1 de julho de 2011 0 comentários

Ciclos de Jornalismo

Lia Seixas, uma das coordenadoras do evento
A Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia realizou na última quarta-feira, dia 29 de junho, a terceira edição do Ciclos de Jornalismo. O tema foi "Jornalismo e Dispositivos móveis: celulares e tablets trazem nova vida ao jornalismo?". 

Sob a coordenação de Lia Seixas, professora adjunta da Ufba, e de Iloma Sales, editora do Mobi A Tarde, essa atividade permanente de extensão da Facom/Ufba - como divulgado no próprio blog do Ciclos - tem por proposta "enriquecer e estreitar a discussão entre academia e a prática jornalística em seus vários segmentos (designer, infografia, impressão, assessoria, mobilidade, jornais, revistas, portais, rádio, televisão etc.)".

Palestrantes e coordenação
Essa terceira edição contou com a palestra de Adelimo Mont'Alverne (diretor de projetos do Malagueta Interativa), de Rodrigo Cunha (jornalista, especialista em design gráfico) e de uma de suas coordenadoras: Ilomar Sales. 

Depois de muitos dados e slides, a conclusão foi a de que o jornalismo ainda não lança mão de todos os recurso disponíveis nos dispositivos móveis. Foi salientado ainda que, por vezes, há uma mera transposição do impresso para as novas plataformas multimidiáticas.

Como ocorreu na  transição do jornalismo impresso para PCs,  notboooks e netbooks, as revistas são os veículos de comunicação que melhor e mais rapidamente estão se adequando aos tablets e celulares. O jornalismo ainda está em um processo de adaptação e necessitando de novos profissionais como  programadores para se adequar às mudanças constantes e velozes que as novas tecnologias impõem. 

Assim como esse, todos os encontros do Ciclos de Jornalismo contarão com certificados para os participantes. 

Siga o Cliclos no Twitter: @cliclosjor 

Texto: Nívia Maria Vasconcellos
Fotos: Wannessa Reis

sábado, 25 de junho de 2011 0 comentários

Auguste Rodin: um contorcer de músculos e cérebro


Vários dos escultores e pintores, principalmente os clássicos, já exploraram as saliências e reentrâncias da musculatura humana. Pode-se notar isso no robusto Moisés e no vigoroso e, ao mesmo tempo, elegante Davi, ambos de Michelangelo. Rodin, que muito foi influenciado por esse artista renascentista, não foge à regra. Apresenta, no entanto, um diferencial que, a meu ver, apresenta-se como uma de suas marcas centrais: a forma como ele dispõe o corpo de seus modelos, levando-os, muitas vezes, à dor e à exaustão. Essa ação o faz conseguir posições as quais denotam um verdadeiro redescobrir do corpo humano, o que resulta em esculturas que substituem a ideia de inércia por uma impressão de movimento, de gesto, de energia mais intensa.


Uma cena do filme Camille Claudel é reveladora de tal prática. Nela, Rodin fez girar o rosto do modelo até uma extremidade que espantou a senhorita Claudel a ponto de ela intervir alegando que seu mestre acabaria machucando o modelo. A essa intervenção Rodin lhe responde – com veemência e tom professoral – que, por poupar muito aqueles que lhe servem de modelo, ela não consegue expressões mais fortes e originais em suas obras.

Vejo nesta “lição” uma das características que doa mais expressividade e originalidade aos trabalhos de Auguste Rodin. Como o traço que doa singularidade a obra de um pintor, por meio dessa técnica, ele conseguia empregar sua marca, a sua inventividade e escapar do retratismo e do imobilismo dos bustos honoríficos e, por conseqüência, atribuir novos efeitos de imagem, luz e sombra.


O pensador, do artista francês Auguste Rodin (1840-1917)
O Pensador
São justamente essas constatações e essa cena acima mencionada que me vêm à mente quando, durante a visita ao Palacete Rodin Bahia, deparei-me com O Pensador, uma das 62 peças lá expostas. Observada de perto e por vários ângulos diferentes, essa obra pode ser utilizada como uma comprovação do uso desse processo de criação. Normalmente, ao pensar, coloca-se o braço direito sobre a perna direita, posição mais fácil, cômoda e lógica. Todavia, essa afamada escultura apresenta uma postura mais complexa, o membro superior direito apóia-se sobre o membro inferior esquerdo, o que salienta as curvaturas das costas e apresenta uma posição que se esquiva do trivial.

O Torso da sombra, escultura em bronze que está localizada no jardim do Palacete Rodin Bahia, é outro dos seus trabalhos que também serve de exemplo. O próprio nome remete a um duplo sentido, “torso” pode significar busto, estátua sem membros e cabeça (o que realmente descreve o trabalho em questão), mas também pode ter o sentido de algo torcido, algo torto. Projetado para frente e levemente pendente para a esquerda, o Torso da sombra oferece a quem o contempla um novo ângulo do corpo humano.

Peças são vigiadas por mais de 70 câmeras espalhadas no Palacete
A Danaide
Essa inteligente e criativa exploração da anatomia humana pode ser encontrada em outras peças expostas em terras soteropolitanas. Em A Danaide, por exemplo, o escultor em questão submete a sua própria amante e aprendiz Camille Claudel, que lhe servia de modelo, a um dobrar-se sobre si mesma. O resultado é uma pequena, porém expressiva obra que considera ipsis litteris a palavra contorcer. Mais que essa, entretanto, não poderia deixar de ser citada A mulher agachada. Essa pequena escultura além de já ser apresentada de cócoras, uma posição nem um pouco confortável para uma pessoa despida, ainda tem sua posição agravada: braço direito para frente da perna direita, braço esquerdo para trás da perna esquerda, rosto encostado entre o joelho e a omoplata direitos, seu tronco parece formar uma diagonal entremeando suas pernas em paralelo. Postura incômoda com certeza para a mulher que lhe serviu de modelo, no entanto bastante capciosa para os contempladores do resultado final.

Porta do Inferno, parte esquerda do frontão
A Porta do Inferno
Outros tantos exemplos poderiam ser citados entre as mais de 6 dezenas de esculturas expostas no Palacete Rodin Bahia como: O desespero (tronco em posição côncava, perna esquerda levantada, mãos unidas segurando o pé erguido); Ninfa chorando (tórax sobre as cochas, cabeça pendida entre os joelhos); Cristo e Madalena (a personagem bíblica tem o tronco intensamente torcido para a direita) e vários dos detalhes que compõem a Porta do Inferno. Tais obras são o resultado de um energético pensar agindo por meio das mãos que criam.

Não se pode, claro, perder de vista outra característica que solta aos olhos nas obras expostas em Salvador e a qual o guia da exposição conferiu muita importância, ratificando-a a todo momento: a sua inacababilidade. Depois de se deparar com uma obra inacabada de Michelangelo, O escravo acordando, Rodin passou a deixar obras propositalmente “incompletas”. Suas obras inacabadas passaram a ser expostas e a marcar o movimento impressionista francês. O que foi uma grande ironia já que uma de suas primeiras obras, O homem de nariz quebrado, foi excluída do Salon de Paris justamente porque o júri a considerou uma obra inacabada. Por meio de tal prática, ele enfatiza a função do escultor e cria a concepção de non finito que vai permear toda a sua estatuária.

A obra A Mão de Deus ilustra muito bem o que foi supracitado. Nela, o momento da criação artística que é o tema. A mão em questão, símbolo de produção, de geração, não é a do Deus cristão, e sim a do escultor, responsável por dar vida ao gesso, ao bronze, ao barro.

Essa inacababilidade que o fez se desvincular do academicismo e a força expressiva alcançada pela “atitude” manifestada em suas esculturas foram responsáveis por renovar a arte de esculpir e o levou a ser considerado o pai da escultura moderna.  Devemos acrescentar que não são muitos os artistas que conseguem gozar de fama e prestígio em vida como Rodin e isso se deve a sua própria inteligência e ambição: pegou para si a tarefa hercúlea de esculpir a Porta do Inferno de Dante, de onde foram destacadas muitas de suas principais obras (como O beijo).

Italo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio, fala de Goethe como “um escritor que certamente não punha limites à ambição de seus propósitos”* e comprova essa assertiva aludindo a uma missiva em que o escritor alemão confessa a sua amada Charlote Von Stein estar planejando um “romance sobre o universo”*. Rodin não foi um escritor, mas um artista que não pôs “limites a ambição de seus propósitos”, o que dá jus ao nome atribuído a exposição: Auguste Rodin, Homem e Gênio. Afinal a arte, seja ela qual for, deve sempre propor-se a objetivos desmedidos, mesmo que aparentemente estejam fora das possibilidades de realização, pois só assim se fugirá à mera imitação e haverá renovação, uma nova maneira de ver o mundo.

* CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Texto: Nívia Maria Vasconcellos
Esculturas: Rodin
Fotos: A Tarde

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